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O dono da estrela Funcionário do Banco Central e astrônomo diletante, Paulo Cacella descobriu uma supernova — feito raro para quem é dono de um modesto telescópio, mas de insistente curiosidade científica Conceição Freitas Da equipe do Correio
‘‘Aconteceu e foi muito mais improvável do que você imagina’’, respondeu Cacella. O que ele havia conseguido na madrugada da sexta-feira anterior 8 de março foi tão espetacular quanto ganhar três vezes seguidas na MegaSena. O engenheiro eletricista de 40 anos, astrônomo amador desde os 9, tinha descoberto uma supernova — estrela em explosão, que expele uma nuvem brilhante e de muito interesse para os astrônomos por conter informações importantes sobre a evolução do Universo. Das duas mil supernovas observadas pelos humanos, a maioria foi descoberta por equipes profissionais e telescópios sofisticados, o que torna mais surpreendente o feito do carioca Paulo Cacella, ex-estudante do Colégio Militar, em Brasília desde 1981. Com um telescópio de US$ 1,5 mil, do tamanho de uma geladeira, (os equipamentos profissionais podem ter até 50 metros de altura e custam dezenas de milhões de dólares), ele localizou e fotografou a supernova que recebeu o nome de 2002bo e fica na galáxia NGC 3190, na direção da constelação de Leão, a 60 milhões de anos-luz da Via Láctea — o que, levando-se em conta as grandezas do universo, não chega a ser uma distância grande. Na noite de 8 de março, pouco depois das 21h, Cacella cansou-se da tevê e resolveu montar o telescópio no terraço de sua casa, no alto de um morro que acompanha o Ribeirão do Gama, num lote fracionado do Park Way, área muito pouco habitada. ‘‘Estava um tanto contemplativo, como gosto de ficar quando estou observando o céu’’, lembra-se. Com internet de rádio, seu computador é ligado ao mesmo tempo ao telescópio e ao resto do mundo. Como se aquela fosse mais uma noite trivial de visita ao maior dos mistérios, Cacella procurou pela distante galáxia UGC 5499 atrás de uma supernova já descoberta. ‘‘Posicionei o telescópio e peguei as imagens nem um pouco excitantes, já que se tratava de uma galáxia remota.’’ Depois, Cacella sentou-se e observou o céu a olho nu. A constelação de Órion se punha a oeste e Virgo nascia a leste. Ao norte, a Ursa maior, e ao sul, a constelação da Carina. Havia tempos, o engenheiro-astrônomo procurava no céu alguma imagem que superasse a do quasar PKS2000-330 que fotografara meses antes. Lembrou-se então de uma galáxia magnífica, a NGC 3190, uma das primeiras a fotografar quando comprou o CCD (aparelho que captura imagens do computador). Logo no primeiro registro, notou uma pequena estrela próxima ao núcleo da galáxia. ‘‘É uma supernova’’, disse a si mesmo. A posição era suspeita, mas era preciso conferir todas as demais hipóteses. Podia ser um asteróide, uma estrela da Via Láctea superposta na imagem ou mesmo um defeito no equipamento. ‘‘Astronomia, sonhos, desejos, imagens, estética, prazer e música são uma droga mais poderosa que qualquer química inventada pelo homem’’, diz Cacella para descrever o que lhe ocorreu no instante em que imaginou que estava sendo testemunha da explosão de uma estrela. O que Cacella não sabia era que aquela era uma supernova desconhecida e que era o primeiro astrônomo a vê-la. Eram 23h00 quando entrou na internet e comunicou o que vira à União Astronômica Internacional (Internacional Astronomical Union, IAU), que imediatamente pediu informações complementares. Duas horas depois, o Observatório de Lick, na Califórnia, — o mais bem posicionado para ver a supernova — confirmava a descoberta. No dia seguinte, à tarde, a IAU expediu a circular nº 7847 confirmando o feito do brasileiro.
Paulo Cacella Serviço Informações e fotos da supernova podem ser vistas no http://www.astrosurf.com/cacella
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