| As estrelas supernovas descobertas por
brasileiros
Ronaldo Rogério de Freitas
Mourão
Há quase exatamente 42 anos, pela primeira vez um
astrônomo brasileiro, Alércio Moreira Gomes (1915-1988) - astrônomo
do Observatório Nacional -, descobriu quatro estrelas supernovas -
num intervalo de seis meses, com auxilio do telescópio Schmidt de
120cm - um dos maiores do mundo - que se encontra instalado no
Observatório de Monte Palomar. Gomes foi para o Observatório de
Monte Palomar em abril de 1959 com uma bolsa da CAPES do Ministério
da Educação e Saúde, na época. Nos EUA, ganhou uma bolsa da Fundação
Guggenheim, em 1.º de outubro de 1960, para prosseguir nos seus
estudos e pesquisas.
A primeira supernova (1960m) foi descoberta em
agosto de 1960, com uma magnitude 15,5, na galáxia NGC 2565 e a
segunda (1960n) foi descoberta em outubro de 1960, com magnitude
16,5, na galáxia NGC 4399. Ambas foram encontradas em galáxias
situadas na constelação de Câncer. A terceira (1960p) foi
encontrada, em novembro de 1960, na constelação de Pisces, com um
brilho de 17,5. A quarta (1961e) foi descoberta em janeiro de 1961,
nas Nuvens de Shane, com uma magnitude 17,0, numa galáxia anônima,
ou seja, sem classificação em catálogo.
Segundo brasileiro descobridor de uma supernova foi
o astrônomo Paulo Sérgio de Souza Pellegrini (1949- ) do
Observatório Nacional -, em 11 de julho de 1983. Em colaboração com
N. Nunes, L. N. da Costa e D. Latham descobriu uma supernova próximo
ao núcleo da galáxia NGC 5746, com o telescópio de 1,6m do
Observatório Astrofísico Brasileiro.
O terceiro brasileiro descobridor de uma supernova
foi o astrônomo amador Paulo Fonseca de Cacella (1962- ), de
Brasília, que, no dia 8 de março de 2002, descobriu uma estrela
supernova de magnitude 15,5 na galáxia NGC 3190. Esta supernova
situada na constelação do Leão, foi designada de 2002bo. Em
conseqüência, Cacella passou a ser o primeiro astrônomo amador
brasileiro a descobrir uma supernova.
A supernova é um evento relativamente raro. De fato,
observa-se em média somente três supernovas por século em uma mesma
galáxia. Na Via-Láctea, três supernovas foram registradas ao longo
do último milênio. A mais antiga ocorreu no ano 1054, na constelação
de Taurus (Touro), e deixou como resíduo a nebulosa do Caranguejo,
com um pulsar - radiofonte que emite pulsos regulares - no seu
centro. A segunda foi a estrela observada por Tycho Brahe, em 1572,
na constelação de Cassiopea (Cassiopéia). Finalmente, a terceira - a
supernova 1604 - foi observada por Kepler, na constelação de
Ophiuchus (Ofiúco).
Em geral, a grande maioria das supernovas foi
registrada nas galáxias exteriores à Via-Láctea, a nossa Galáxia. A
primeira supernova extragalática foi observada em 1885, na galáxia
Messier 31, na constelação de Andrômeda, pelo astrônomo alemão E.
Hartwig e outros. Desde então observou-se cerca de mais de 20
supernovas por ano, sendo que a mais brilhante - atingiu a magnitude
3 - foi observada, em 1987, na Grande Nuvem de Magalhães.
No seu brilho máximo, uma supernova pode tomar-se,
às vezes, mais luminosa que a galáxia onde está situada. Sua
luminosidade pode atingir um valor de 10 bilhões de vezes a do Sol.
A energia liberada no decorrer do fenômeno é enorme, da ordem de 10
elevado a potência 45 joules. As medidas espectroscópicas indicaram
que a matéria ejetada, decorrente da explosão, pode possuir uma
velocidade da ordem de vários milhares de quilômetros por segundo. O
fenômeno da supernova é o de um cataclisma muito violento que faz
explodir completamente uma estrela relativamente maciça que atingiu
um estágio muito avançado da sua evolução. A maior parte da massa
ejetada durante a explosão constitui o que se convencionou denominar
resto de uma supernova. Sua aparência é a de uma nebulosa em
expansão, com emissões de rádio e de raios X provenientes de uma
emissão sincrotron. A fração de massa não ejetada - coração da
estrela - constitui um resíduo muito compacto. Tem a forma de uma
estrela de nêutron - fonte que emite pulsos em onda de rádio com
grande regularidade - de onde o nome dado ao seu núcleo de
pulsar.
Distinguem-se dois tipos de supernovas, que diferem
entre si pela curva de evolução da sua luminosidade em relação ao
tempo. As do tipo I são as mais brilhantes e o seu brilho decresce
mais lentamente que o das supernovas do tipo II que são, ao
contrário, mais freqüentes, segundo as hipóteses atuais.
Por um lado, uma supernova do tipo I provém da
evolução de um sistema binário que possuía como companheira uma
anã-branca, que progressivamente por atração gravitacional subtrai a
matéria de sua companheira e acaba por explodir. Por outro lado, as
supernovas do tipo II são estrelas maciças isoladas que explodem,
após ter esgotado todo o seu combustível nuclear. Nesse momento, o
seu núcleo, em geral constituído de ferro, implode violentamente
quando as reações termonucleares cessam, embora elas prossigam entre
as camadas periféricas da estrela.
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é
pesquisador-titutar do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no qual
foi fundador e primeiro diretor, autor de mais de 65 livros, entre
outros livros, do "Anuário de Astronomia 2002". Consulte a
homepage: http://www.ronaldomourao.com
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